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Um conto de João Aguiar - A natividade relutante:

À porta da Sala fui encontrar o Supervisor, rodeado pelos seus Técnicos. Aqueles rostos tensos, angustiados, confirmaram o meu pressentimento: havia crise.
Mal me viu, o Supervisor correu ao meu encontro.
– Ainda bem que veio, é a nossa última esperança!
– O que se passa? Algum contratempo?
Ele dominava-se, mas era evidente que estava à beira do pânico.
– Contratempo? Se fosse só um contratempo... mas é bem pior. Pode muito bem ser uma catástrofe!
Indicou a porta da Sala, que se mantinha fechada, e acrescentou:
– O Processo foi interrompido.
Como assim, perguntei. Isso nunca tinha acontecido, era uma coisa inconcebível. O Supervisor encolheu os ombros e explicou:
– Ele abandonou a Câmara de Transformação e recusa-se a voltar para lá.
Não percebi logo o significado da frase.
– Não quer voltar? Quer dizer que...
Gravemente, o Supervisor fez um aceno afirmativo: – Recusa-se a nascer.
– Como? (...)

© João Aguiar, O Canto dos Fantasmas, 2ª ed. revista, Porto, Edições Asa, 1999, pp. 90-94 (reprodução autorizada pelo autor).


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